Por Arison Jardim

Em uma aquarela diversa de partidos e posições políticas e de gestão pública, nove estados decidiram juntar suas identidades similares e interesses que os unem para fortalecer a geopolítica da região com o Fórum de Governadores da Amazônia Legal.

Na última sexta-feira, 11, em Cuiabá (MT), os governadores Tião Viana (Acre), Pedro Taques (Mato Grosso), David Almeida (Amazonas), Carlos Brandão (vice-governador do Maranhão), Confúcio Moura (Rondônia), Marcelo Miranda (Tocantins) e Papaléo Paes (vice-governador do Amapá) reuniram-se mais uma vez para avançar nas etapas de criação de um consórcio para a região, de uma plataforma conjunta de comunicação, buscar soluções sobre a segurança, principalmente contra o narcotráfico, e na definição de uma nova agenda ambiental.

Mas, para além dos temas específicos, a junção dos chefes de estado demonstra o surgimento de uma força diferente na geopolítica brasileira: a busca conjunta de soluções para problemas comuns aos estados. O desenvolvimento sustentável baseado em respeito aos recursos naturais, utilizados com controle e manejo, é o grande foco dos debates deste grupo.

Afinal, o mundo olha para a Amazônia como um santuário natural e como uma solução para o problema ecológico que a civilização vive hoje. Mas uma realidade no meio dessa região é pujante: existe uma população de mais ou menos 25 milhões de pessoas vivendo o desafio diário de seguir seu caminho nesse modelo de economia e sociedade.

Como desenvolver?

O dilema está posto: conservar a natureza, que é um papel histórico para qualquer estado na atual civilização, e ao mesmo tempo produzir e fazer movimentar sua economia. Com isso, os estados da região buscam ao seu jeito achar o modelo mais apropriado.

Essa conta da conservação não deve ser paga somente por quem hoje vive na Amazônia, mas também pela parte do mundo que decidiu no seu passado começar esse processo de aquecimento global e mudanças climáticas.

O Acre tem em sua história essa luta pelo bem estar dos moradores da floresta e ao mesmo tempo da conservação de suas casas, a mata e o ambiente natural. Até por isso, o estado tem sido pioneiro quando se fala em desenvolvimento sustentável.

“Quero destacar aqui o avanço que tem no estado do Acre e no Mato Grosso, que já estão nesse processo de defesa do meio ambiente há muito anos. São espelho para os outros estados”, afirma Carlos Brandão, vice-governador do Maranhão.

E assim começa a união de forças para preservar e expandir. “Veja o que o Acre tem feito, e também o Mato Grosso, na captação de recursos internacionais diretamente”, afirma Pedro Taques, governador do Mato Grosso, mostrando que esse é um exemplo na troca de experiências entre os estados.

Taques se refere a uma das últimas parcerias que o Acre fez com a Cooperação Alemã e ao Banco de Desenvolvimento Alemão KfW, que resultou na doação de mais de R$ 100 milhões para o estado aplicar nas cadeias produtivas, dentro do programa global REDD Early Movers (REDD para pioneiros).

Agora, o estado de Mato Grosso está fazendo a mesma parceria com o KfW, e o Acre já negocia uma segunda etapa. Por isso, Taques é enfático ao afirmar que “o governador Tião Viana é uma liderança nessa área de relação dos estados subnacionais e organismos financeiros e instituições internacionais”.

Pela experiência positiva nesse modelo, que o Acre provou ser possível, que o grupo decidiu se juntar para realizar um evento mostrando a Amazônia na Conferência das Partes, a COP 23, que ocorrerá na Alemanha em novembro.

“Essa integração hoje está sendo fundamental para a gente discutir temas importantes como a COP 23. Isso significa diálogo”, afirma Marcelo Miranda, governador de Tocantins. Assim ficou definido que em Rio Branco, no próximo encontro do Fórum, serão definidos os detalhes dessa agenda conjunta, o Amazon Day dentro da COP.

Um dos Brasis, a Amazônia se ergue

No terceiro encontro em 2017, o 15º Fórum desperta ainda mais o sentimento de valorização dessa região tão rica do Brasil. A Amazônia Legal, que corresponde à 59% do território brasileiro e abrange nove estados. Avançando ainda mais na última sexta-feira, 11, a criação do Consórcio ajudará na captação de recursos e resolução dos problemas comuns aos membros.

Confúcio Moura, governador de Rondônia, deu uma simples, porém contundente, explicação da importância desta etapa.

“A criação do consórcio, a princípio parece um movimento separatista do Brasil. Seria muito bom se dois terços do território brasileiro tivesse uma independência de iniciativa. Por que um recurso bom e legal, que podemos captar fora do país, tem que passar pela burocracia da União? Nós queremos essa provocação verdadeira, não estamos satisfeitos com o tratamento dado aos estados a Amazônia”, afirmou Moura em seu discurso.

Esse empoderamento da região é compartilhado por Tião Viana, como afirmou em seu discurso: “Quando somamos nossos PIBs [Produto Interno Bruto], somos sabedores da importância, do valor que tem a Amazônia no ponto de vista material, sem contar no valor intangível que é viver num ambiente que é tão essencial para o planeta, já que estamos nesta grande crise ecológica de toda a história humana. Já avançamos muito porque nós nos unimos, respeitando a nossa individualidade, identidade de desenvolvimento, valores e responsabilidade. Cada um fazendo sua parte com sua autonomia e a união e independência do seu povo”.

A mensagem para o Brasil foi passada: a Amazônia e seu povo são donos de seu destino e sabem da responsabilidade civilizatória que têm. No dia 26 de outubro deste ano, em Rio Branco, na próxima edição do Fórum, o grupo irá sair ainda mais fortalecido.